olho por olho a olho nu
Haroldo de Campos


uma arte ­ não q apresente ­ mas q presentifique
                                       o OBJETO
uma arte inobjetiva?         não
                                       :OBJETAL
qdo o OBJETO mentado não é o OBJETO expresso, a expressão tem
uma cárie
                                       LOGO:
falidos os meios tradicionais de ataque ao OBJETO
(língua de uso cotidiano ou de convenção literária)
um(a) novo(a) meio (língua)                          de ataque direto à
                                           medula desse
                                                 OBJETO
POESIA CONCRETA:                           atualização
"verbivocovisual"
                                                   do
                                                   OBJETO virtual



DADOS:

a palavra tem uma dimensão GRÁFICO-ESPACIAL
uma dimensão ACÚSTICO-ORAL
uma dimensão CONTEUDÍSTICA
agindo sobre os comandos da palavra nessas
3


dimensões                  3

a

POESIA CONCRETA assedia

o OBJETO mentado em suas plu-
rifacetas: previstas ou imprevistas:
veladas ou reveladas: num jogo de
espelhos ad infinitum em q essas 3 di-
mensões 3 se mútuo-estimulam num
circuito reversível libertas dos amor-
tecedores do idioma de comunica-
ção habitual ou de convênio livresco

uma
NOVA ARTE de expressão
exige uma ótica, uma acústica, uma
sintaxe, morfologia e léxico (revisados
a partir do próprio fonema)
NOVOS

PAIDEUMA
elenco de autores culturmorfologicamente atuantes no momento histórico = evolução qualitativa da expressão poética e suas táticas:
POUND ­ método ideogrâmico
               léxico de essências e medulas (definição precisa)
JOYCE ­ método de palimpsesto
              atomização da linguagem (palavra-metáfora)
CUMMINGS ­ método de pulverização fonética
              (sintaxe espacial axiada no fonema)
MALLARMÉ ­ método prismográfico (sintaxe espacial axiada nas
              "subdivisões prismáticas da idéia")
e pq NÃO os FUTURISTAS? ­ "processo de luz total" contra
               os DADAÍSTAS? ­ o blackout da história: ­
                                         v a l i d a ç ã o
         do contingente positivo desses "ismos" em função da          expressão poética OBJETAL ou CONCRETA neotipografia,
         "paroliberismo", imaginação sem fio,

         simultaneísmo, sonorismo etc. etc.

                                          etc. etc.

                                          e
                                          m
         FUNÇÃO de uma                   NÃO
         apenas psicologia
                 MAS
         fenomenologia

         da                  composição
POESIA CONCRETA =
poesia posicionada no mirante culturmorfológico ao lado da

                                  PINTURA CONCRETA
                                  MÚSICA CONCRETA
guardando as diferenças relativas mas ­ não se trata da miragem
da obra de arte total ­ compreendendo as necessidades comuns à
expressão artística
                                                           CONTEMPORÂNEA
PROGRAMA:
o POEMA CONCRETO aspira a ser: composição de elementos básicos da linguagem, organizados ótico-acusticamente no espaço gráfico por fatores de proximidade e semelhança, como uma espécie de ideograma para uma dada emoção, visando à apresentação direta ­ presentificação ­ do objeto.

a POESIA CONCRETA é a linguagem adequada à mente criativa contemporânea

permite a comunicação em seu grau + rápido
prefigura para o poema uma reintegração à vida cotidiana semelhante à q o BAUHAUS propiciou às artes visuais: quer como veículo de propaganda comercial (jornais, cartazes, TV, cinema etc.), quer como objeto de pura fruição (funcionando na arquitetura, p. ex.), com campo de possibilidadesanálogo ao do objeto plástico substitui o mágico, o místico e o maudit pelo ÚTIL

TENSÃO para um novo mundo de formas
                                                 VETOR
                                                           para
                                                                     o
                                                                     FUTURO



Publicado originalmente na revista AD ­ Arquitetura e Decoração, número 20, São Paulo, novembro/dezembro de 1956; republicado no "Suplemento Dominical" do Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 28 de abril de 1957.